Imprensa

Sábado, 26 de novembro de 2011

Reno, o doutor esperança

REVISTA ALDEIA

AGOSTO/2011

Reno, o doutor esperança 

Fundador do Ceonc, o médico oncologista Reno Paulo Kunz fala sobre perdas, superação e a incrível capacidade de servir aos outros

A palavra esperança sempre exigiu um entendimento maior por parte do médico oncologista Reno Paulo Kunz. Ainda muito jovem foi surpreendido pela doença do irmão caçula. O diagnóstico era de câncer e o sofrimento, inevitável. O ano, 1975. Pouco se sabia sobre a doença. Exatos 14 meses depois de exaustivos tratamentos em Curitiba – a família morava em Francisco Beltrão -,  a morte prematura.

A perda do irmão significou para Reno muito mais que um afastamento, que um silêncio. Significou sim uma reflexão sobre a frágil condição humana e sobre si mesmo. Ainda ressentido, fez uma promessa. Nascia, ali, o médico oncologista. “Larguei o curso de Medicina Veterinária no primeiro semestre para cursar Medicina”, conta. A oncologia foi uma consequência.

Aos 54 anos, dr. Reno não é um sujeito muito convencional, como, aliás, deixa claro sua agenda diária. Desde que criou o Centro de Oncologia Cascavel (Ceonc) há 17 anos, tem sido assim. O envolvimento é tanto que raramente sai do hospital antes das 19 horas. Detalhe: às sete da manhã, já está atendendo e é comum vê-lo não parar nem para almoçar. A explicação é simples. Amor pelo que faz.

Em sua dedicação sacerdotal, consegue falar a linguagem do paciente, entender sua dor, emocionar-se junto com ele. Essa humanização faz parte do processo de cura. No hospital, além de todo o aparato tecnológico, o grande diferencial é a individualização do tratamento. “Cada caso é um caso, cada pessoa tem uma história e responde de formas distintas a um mesmo procedimento”, explica. “Não sou um médico tecnificado. Preciso de um relacionamento mais humano com os meus pacientes, embora isso represente uma entrega maior. Acredito que só deve ser médico quem tem essa capacidade de se entregar, de estabelecer este elo de confiança”.

A oncologia, garante, é para poucos. “Nem sempre se consegue a cura. O tratamento oncológico é demorado e sofrido, envolve toda a família. Nossa missão é amenizar este sofrimento. Se você não consegue a cura, consegue prolongar a vida com mais dignidade. Sempre há algo a oferecer”, diz. É aí que entra novamente o conceito de esperança, bem diferente daquele vivenciado pelo médico no início de sua carreira. “Hoje, conseguimos oferecer condições bem mais consistentes de tratamento, seja na parte cirúrgica, seja nos tratamentos de quimioterapia ou radioterapia”.

Sempre atento ao sofrimento alheio, dr. Reno diz que é preciso conhecer os limites da medicina. “Cabe ao médico fazer a coisa certa e ser humilde o suficiente para saber que em determinada situação seu limite acabou. Quando jovens, somos mais impetuosos. A vida vai nos lapidando e aprendemos que não somos deuses”, enfatiza.

Como qualquer ser humano falível, ele mantém um hábito antigo. Acorda no meio da noite e reopera mentalmente os pacientes. Faz todo o procedimento cirúrgico na imaginação para ter certeza de que fez o possível. Quando chega para trabalhar, logo pela manhã, procura mentalizar coisas boas. É uma maneira de se preparar para a entrega total. “Todo dia vivencio situações diferentes, histórias diferentes e preciso estar pronto. A vida é uma batalha para todo mundo”, fala.

 

DISCIPLINA

Durante toda a sua adolescência, Reno acordou às 4 horas da madrugada. E não era para nenhum plantão médico. Nem médico ele era ainda. Filho de produtores de leite de Francisco Beltrão, o jovem tinha a tarefa de ordenhar as vacas. A disciplina era rígida e o trabalho árduo.

Acordava às quatro, tirava o leite e ia para a aula. Isso até a oitava série. O Ensino Médio, à noite, era mais penoso. “Trabalha de dia no sítio e ia à noite para escola, distante oito quilômetros. Chegava à meia-noite em casa e às quatro da manhã, começava tudo de novo. Ninguém morreu disso”, diz, referindo-se aos cinco irmãos.

Ao contrário, o menino que sempre estudou em escola pública passou no primeiro vestibular que fez para Medicina na Universidade Federal de Paraná (UFPR), em 1977. Mais uma vez, a educação alemã falou mais alto. Talvez seja por isso que faz questão de evidenciar mesmos referenciais que marcaram sua juventude. “Mantenho a mesma disciplina, organização e planejamento. Aprendi isso lá atrás. O produtor de leite tem rotina, o médico tem rotina. Procuro fazer tudo bem feito”.

 

PRESENÇAS

Em sua sala, onde despacha questões administrativas do Ceonc, dr. Reno se constrói e se reconstrói todos os dias. É ali, naquele pequeno espaço físico, que supera a sua dor. A perda do irmão nunca foi esquecida. Mas, a morte do pai, “seo” Deomar, em 2007 e a morte do filho Rodrigo, de apenas 25 anos, no ano passado, o tornou ainda mais compassivo. “O meu pai sempre dizia para eu nunca deixar de servir quem quer que fosse. ´Mesmo que eu não esteja mais aqui´, falava, ´estarei te acompanhando´. Sinto a presença dele todos os instantes”, encerra, com um sentimento visualmente impossível de decifrar.

 

QUEM É ELE?

Reno Paulo Kunz é médico oncologista, fundador do Ceonc. Nascido em Francisco Beltrão, é filho de Deomar e Gentila. Casado com a bancária Regina, teve dois filhos, a médica Regiane e Rodrigo, falecido há um ano.

 

Texto: Rejane Martins Pires

Fotos: Vanderson Faria